|
::
Detetive particular
- A um passo da infidelidade
A
julgar pela quantidade de anúncios oferecendo serviços de
investigação conjugal, o adultério está em alta. À procura de um
flagrante, detetives particulares fazem perseguições, fotos,
filmagens e gravações comprometedoras. Vão atrás do suspeito de
carro, moto ou a pé, trocam de roupa e se alternam com outros para
evitar desconfianças. Mais cedo ou mais tarde, o suspeito é
desmascarado. Casos curiosos com desfechos inesperados não faltam
nos arquivos desses voyeurs profissionais. A realidade é bem
diferente do que se passa nos filmes e livros policiais.
Até o Código Civil, rigoroso com relação ao adultério, contribui
para aquecer o mercado desses profissionais.
Você está com a outra, sai para jantar e, numa mesa, um grupo
comemora aniversário. No tradicional Parabéns!, flashes espocam
registrando a data. Depois do jantar, você segue para o motel e
pensa ter escapado ileso. Ledo engano. Algumas horas depois, uma
surpresa: na saída do motel, a esposa observa você e dá o flagrante.
Para completar, mostra fotos suas no restaurante aos beijos com a
outra. Parece armadilha, você nem desconfiava que estava sendo
seguido há vários dias por detetives particulares.
Bem diferente do glamour de personagens como Sherlock Holmes, James
Bond e Hercules Poirot, mas sem cair na caricatura dos atrapalhados
Ed Mort, Mário Fofoca e Espada Fora, de “Quatro Por Quatro”, os
detetives são pessoas comuns, que se diferenciam por usarem métodos
próprios para resolver desde casos mais simples até os aparentemente
insolúveis.
O serviço, que dura no mínimo cinco dias, começa com uma entrevista
da cliente, que descreve o suspeito. O trabalho se divide na
perseguição do suspeito e o levantamento, com a obtenção dos dados
da pessoa investigada. A investigação é sutil e realizada em equipe
coordenada por um detetive. O agente acompanha o suspeito desde o
momento em que deixa o domicílio até a volta para casa, anotando o
traje e cada passo do perseguido.
Com autorização do proprietário, é instalado um aparelho na casa do
cliente para a gravação de telefonemas. Apesar de proibido, o grampo
é bastante utilizado. E os detetives também sabem captar ligações de
celulares a até 50 metros.
Raramente a pessoa percebe que está sendo seguida. Em geral, os
auxiliares trabalham em dupla, um de carro e outro a pé -, o que
pode mudar de um dia para o outro. É proibido o agente entrar no
domicílio. O que pode ser feito é levantar dados sobre o imóvel e
seu ocupante, por exemplo: saber há quanto tempo mora ali, se o
apartamento é próprio ou alugado. Muitas vezes, quem está de fora dá
mais trabalho aos agentes. Para não levantar suspeitas, o auxiliar
tem que se vestir de acordo e falar a mesma linguagem do ambiente.
A foto comprometedora é o recurso mais usado como prova nos casos de
adultério. Mas como fotografar sem que a pessoa perceba? Há muitas
formas. Num restaurante, pode-se armar uma festa, para tirar fotos
do casal suspeito. "Não é tão difícil quanto parece. Tanto o homem
quanto a mulher, quando estão envolvidos, ficam tão bobos que nem
percebem o que se passa à sua volta - o homem principalmente, pois
está sempre mais preocupado com quem está paquerando a parceira",
observa a detetive Isabel Brasil.
O detetive Joaquim Roque dos Santos, o Roque, atua na área há 30
anos como detetive particular. Nesses anos todos de experiência, uma
constatação: a mulher já está acostumada a ser traída e nunca larga
o marido. Já o homem tem um interesse comercial, não quer perder
seus bens para outro. Em geral, o homem vende seus bens antes de se
separar.
“Se
a sua mulher anda se produzindo muito, gastando com cabeleireiro e
salão de beleza; se ela anda se perfumando e falando em fazer
ginástica, em trabalhar fora; ou anda 'colada' com uma amiga
descasada, cuidado: você está a um passo de ser traído”. Sentado em
sua mesa de trabalho, Roque explica que atende a uma média de 15
casos por mês, com um “elevado percentual de êxito em cada um”. Cada
um fica - em termos de grana -, para o cliente, a maioria numa base
de R$ 6 mil.
Com a segurança adquirida ao longo de seus muitos anos no ramo, o
detetive Roque afirma que os casos de infidelidade acontecem mais
por parte dos homens. “Geralmente, quando a mulher nos procura é
porque ela ainda tem dúvidas e quer tirar o caso a limpo, saber que
tipo de pessoa é a outra, se é mais jovem, mais bonita, mais
elegante...”
Já quando um cliente contrata os serviços do detetive, tem certeza
de que está levando um chifre daqueles... “O marido chega aqui
atordoado, sabe que a mulher está saindo com outro, seu objetivo é
dar o flagrante e, se for o caso, acabar com o casamento a partir de
então.” Roque confirma a tese de que corno é sempre o último a
saber. “Não demoramos mais do que uma semana para esclarecer um
caso. Fazemos a campana (vigia) de carro, moto ou a pé. As mulheres,
que são 10 mil vezes mais espertas do que os homens, costumam fazer
a equipe suar, mas no término de sete dias, é inevitável: acaba
descoberta.”
“Certa vez”, conta o detetive, “um bem-sucedido empresário veio me
procurar e me passou a missão de descobrir com quem sua mulher
estava transando. Iniciei a campana e, ao fim de uma semana,
descobri o seguinte: a mulher do empresário saia de casa em seu
carro, dizia ao marido que ia fazer compras. Dirigia até um shopping
da cidade e deixava o automóvel no estacionamento, saindo de táxi.
Ela desceu em uma das ruas e ficou próxima a um supermercado. Não
demorou e um homem jovem veio ao seu encontro. Ele estava vestido
elegantemente: camisa de seda, sapato de cromo alemão, calça jeans
importada e usava, no pulso esquerdo, nada menos que um Rolex! -
presentes ganhos da sua amante, pagos, é claro, com o dinheiro do
marido dela. Eles trocaram uns beijos e em seguida pegaram outro
táxi. Depois de segui-los até um motel, liguei para o meu cliente.
Ele já veio me encontrar acompanhado de uma autoridade policial. O
flagrante foi dado e o Ricardão identificado era um dos motoristas
da empresa do meu cliente!”
É comum, segundo explica Roque, as mulheres contratarem os serviços
do detetive para saber com quem mais seus maridos andam se
relacionando. “Elas imaginam a outra mulher, fazem suposições, mas
na hora h eu descubro que não é com mulher que ele está saindo, mas
sim com outro homem. Nesses casos, elas ficam desnorteadas, não
sabem que atitude tomar”.
O inverso também costuma acontecer, mas em menor escala, como afirma
Roque. Em é aquela velha história, né: fogo de morro acima, água de
morro abaixo, e mulher quando quer trair o marido ninguém segura!
Sim, porque a mulher é muito mais “malandra” que o homem, elas têm
sempre mil e uma bolações para inventar. E enquanto o marido pensa
que ela está na casa da sogra cuidando da velhinha, na verdade está
é sendo passada na cara pelo Ricardão do momento.
Para Roque, os melhores dias para o flagrante são as segundas e
sextas. "No início da semana, para matar as saudades, porque os
amantes não se encontram nos sábados e domingos, e nas sextas para
compensar o fim de semana que passam afastados.
Além de equipamentos como teleobjetiva, filmadora capaz de aumentar
em até 36 vezes a imagem, Roque usa celular. Como provas, valem um
vídeo, gravação telefônica ou ambiental e a foto com o negativo,
para impedir montagens.
Outro tipo de investigação é a empresarial, com levantamento de bens
patrimoniais, gravação eletrônica para detectar furtos, roubos,
fraudes, desvios de mercadorias e sabotagens. É comum a infiltração
de agentes na empresa. O investigador passa a freqüentar a empresa e
é contratado por alguns meses numa função hierárquica inferior à do
suspeito. Faz gravações e levantamentos com os dados dos suspeitos.
As provas, além das gravações, são cópias de documentos. Nestes
casos, o pagamento é maior - no mínimo R$ 5.500 por semana. Quando a
fraude é comprovada, o empresário dá o flagrante no culpado e no
farsante. "O agente vira cúmplice e participa do esquema de golpes
armados. Ao ser desmascarada a trama, ninguém percebe quem foi o
dedo-duro", observa Jaime.
Fonte: Brasília em Dia |